Comentário enviado para a coluna Conexão Global do Nelson Vasconcelos no Jornal O Globo de 23 de setembro

Prezado Nelson,

 

Aproveitando que vocë pode ter uma edição extraordinária a respeito do assunto, gostaria de contribuir com uma outra visão a respeito.

 

Sou metade americano e metade brasileiro, tendo vivido metade da minha vida em ambos os países alternadamente, como também metade da minha vida profissional em ambos os países no setor de TI.  Isto, muitas vezes me oferece um ponto de observação diferenciado, e que na verdade considero privilegiado, já que me considero não somente um pessoa com dupla cidadania, mas sim um duplo cultural. Chego a brincar e me apresento como um “amerioca”.

 

De qualquer forma, dentro deste ponto de vista, e dentro de uma das minhas atribuições profissionais nos últimos 10 anos, como consultor do programa do Softex, uma das iniciativas do governo para promover a exportação de software brasileiro, e tendo percorrido vários destinos ao redor do planeta, proferindo palestras sobre o porque o DNA cultural brasileiro é uma vantagem competitiva quando se busca terceirizar serviços e soluções de tecnologia da informação, tenho as seguintes reflexões a oferecer.

 

Primeira, enquanto concordo com o Sr. Marcelo Astracham que os U$ 800 milhões estão muito aquém dos $ 25 bilhões que a India faturou no ano passado, é importante destacar alguns fatores que influenciam este resultado. E parte destes fatores tem a ver com peculiaridades dos dois países, tanto do ponto de vista de política pública, quanto do ponto de vista do comprometimento das próprias empresas.

 

Sobre o direcionamento das políticas públicas entre os dois países, enquanto os 2 países determinaram o setor de software como sendo prioritários e estruturantes para  o desenvolvimento sustentado dos respectivos países, no Brasil isto está inserido no PITCE (Política Industrical, Tecnológica e Comércio Exterior), a India não tem uma economia tão diversificada como a economia brasileira, consequentemente consegue aplicar mais recursos e esforço no setor de tecnologia da informação. No Brasil, apesar de ser considerado um segmento estratégico, os investimentos do governo são compartilhados entre pelo menos 34 ou 35 setores econômicos.

 

Além disto os investimentos espec;ificos para o setor, estão espalhados por diversos ministérios e órgãos, com diretrizes e mandos políticos distintos, e com isto dificultando enormenente um planejamento consolidado e estruturado a partir de uma visão comum das metas a serem alcançadas bem como dos seus indicadores. Algo que não ocorre na India. Lá, tudo é canalizado através da NASSCOM, a principal associação organizada pelas próprias empresas. Vale destacar também que na India, pelo objetivo comum de exportação, a cultura associativa está bastante enraigada nas suas empresas. Onde elas entendem que atuando de forma coletiva estará também se beneficiando individualmente.

 

Outra característica preponderante e que também diferencia ambos países, é o fato da India não possuir um mercado doméstico consumidor, fazendo com que todas as empresas de tecnologia do país se unam em torno do objetivo de exportação. Ao passo que, no Brasil,  é justamente o contrário. Existe um mercado doméstico forte, e cada vez mais crescente, e que vem aumentando ao passo que o país vem alcançando melhores níveis de desenvolvimento econômico. E isto coloca em evidência a outra reflexão que sugiro: A do comprometimento das empresas.

 

Grande parte das empresas de TI no Brasil iniciaram as suas operações baseadas nas expectativas de retorno a partir do próprio mercado brasileiro, e muito poucas, anteviram potencial nos mercados externos na sua largada para o mercado. Portanto, as empresas brasileiras,  já no seu nascedouro, tem um objetivo distinto das empresas indianas. Por terem um mercado doméstico robusto e em  franco desenvolvimento, muito das empresas não tem capacidade estrutural e financeiro para desenvolver outros mercados em paralelo.  E quando tentam fazê-lo, o fazem em caráter experimental e tímida, o que as faz não alocar grandes investimentos. Acontece que a maioria deste outros mercados são bastante competitivos, na maioria das vezes, bem mais que o mercado brasileiro. E por esta razão, exigem um maior grau de investimentos, esforço e comprometimento.

 

E na minha visão, diante do mundo globalizado que vivemos, é aí que mora um dos grandes perigos para as empresas brasileiras, pois o mundo está ficando cada vez mais plano, e as novas empresas estrangeiras também começam a vislumbrar o nosso mercado, além daquelas multinacionais que aqui já estão há bastante tempo. Especialmente com a deflagrada recessão nos Estados Unidos e Europa, fazendo com que as empresas internacionais tenham que buscar novos mercados para repor as perdas nos mercados em que presentemente atuam.

 

De qualquer forma, é muito importante destacar que o DNA cultural brasileiro, embutido no “modus operandi” das empresas brasileiras de TI, é uma grande vantagem competitiva no cenário internacional, e é isto é um dos ângulos que dou a maior ênfase nas minhas palestras.  Na semana passada tivemos a comprovação disto durante um evento em Dallas, Texas, que reuniu 360 executivos de TI de algumas das principais empresas, com faturamento entre U$ 250 milhões e U$ 1`bilhão de dólares, que atuam no mercado norte americano, e que votaram no Brasil como a melhor oferta de serviços de TI do evento, onde estavam presentes empresas de todos os pontos do planeta.

 

Certamente existem outros fatores que influenciam o nosso resultado aquém do que gostaríamos de ver, e do qual necessitamos para sermos considerados um “global player”.  Estes fatores precisam, sem dúvida, ser estudados com bastante critério pelas diversas autoridades e instituições no mercado voltadas para promover o desenvolvimento da exportação do software brasileiro. Mas creio que nunca podemos deixar de destacar que a nossa inventividade é altamente competitiva, e que para conseguir cada vez mais uma luz ao sol, precisa-se de uma política mais forte e focada por parte do governo, que apesar de ter um bom programa através do Softex e da Apex, destina recursos muito aquém  da real necessidade para quem quer chegar aos bilhões de faturamento em exportação de software.

 

Ao mesmo tempo, as empresas brasileiras tem que acordar e entender as implicações de um mundo cada vez menor e globalizado. Entender que precisa olhar para o além-fronteira, pois se não o fizer,  acabará acordando um dia e  encontrará um indiano ou um filipino no seu quintal.

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